Às vésperas de mais uma decisão do Copom e com a guerra no Irã supostamente perto do fim após o anúncio do acordo no domingo (14), a Kapitalo se ancora no mercado local na aposta que considera menos exposta tanto ao Banco Central quanto às urnas. Nos fundos Zeta e Kappa, a gestora saiu dos prefixados e concentrou a posição em juros reais, que vê em patamar “elevadíssimo” e com espaço relevante para cair.
Para Bernardo Feijó, COO da gestora, as taxas reais altas refletem o descompasso das contas públicas, com uma projeção preocupante para a relação dívida/PIB caso as políticas atuais sejam mantidas. “Há uma inconsistência entre política fiscal e monetária que justifica essa taxa”, afirma. Ainda assim, ele enxerga oportunidade na posição. “Se as políticas adotadas no futuro forem corretas, há espaço grande para queda de juros reais, independentemente de quem for o próximo presidente do Brasil”, diz.
Um atrativo adicional dessa alocação, na visão do gestor, é estar menos sujeita às próximas decisões do Banco Central, o que reduz o risco do fundo em um momento de incerteza.
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A leitura sobre o Banco Central ficou mais dura justamente na semana em que o Copom se reúne para decidir os juros, ainda sem consenso claro do mercado sobre o rumo da decisão. Os investidores revisaram a expectativa de novos cortes e passaram a discutir se os poucos já feitos podem ser revertidos.
“Entendemos que qualquer janela que pudesse se abrir para o BC acelerar cortes de juros foi fechada”, afirma Feijó. Para ele, mesmo o acordo entre Estados Unidos e Irã anunciado no domingo não devolve espaço para cortes, porque a inflação global mais alta já está contratada. Por isso, os fundos não carregam hoje nenhuma posição que dependa da autoridade monetária no curto prazo.
O reposicionamento vem na esteira de um maio forte, em que os melhores desempenhos couberam às carteiras mais ativas e de maior risco. O Zeta, que reúne os 13 times de gestão da Kapitalo sob o conceito de “constelação de hedge funds” e roda volatilidade perto de 13% ao ano, subiu 2,97% no mês e ficou com o segundo melhor desempenho entre 240 multimercados de estratégia macro com mais de R$ 100 milhões de patrimônio, em levantamento do InfoMoney com dados da Economatica.
O Kappa, que segue as mesmas estratégias com risco menor, rendeu 2,15%. Para Feijó, as quedas de março abriram caminho para a recuperação mais forte de abril e maio, já que a dispersão de temas costuma gerar oportunidades.
| Fundo | Patrimônio (R$ mi) | Maio (%) | 2026 (%) | 12 meses (%) | Volatilidade |
|---|---|---|---|---|---|
| Adam Macro Master | 220 | 17,80 | 22,47 | 29,10 | 12,69 |
| Kapitalo Zeta | 1.036 | 2,97 | 1,07 | 14,50 | 13,27 |
| Safra Global Equities | 144 | 2,72 | 8,90 | 19,10 | 6,08 |
| Legacy Capital Alpha | 2.519 | 2,27 | 3,62 | 15,97 | 10,52 |
| Kapitalo Estrat. Kappa | 221 | 2,15 | 3,39 | 15,42 | 7,84 |
| Ibiuna Hedge St Master | 2.698 | 1,78 | -0,22 | 8,40 | 8,51 |
| Gávea Estratégia Macro | 364 | 1,67 | 4,12 | 9,12 | 5,52 |
| Legacy Capital Master | 3.106 | 1,64 | 4,53 | 15,81 | 5,31 |
| Asa Gauss Ci Mult | 260 | 1,64 | 4,58 | 17,31 | 8,64 |
| Jubarte Migration | 366 | 1,57 | 7,08 | 19,46 | 5,05 |
Na bolsa brasileira, onde está o grande destaque da recuperação dos fundos mesmo no momento ruim do Ibovespa, a carteira está montada de forma defensiva em relação à economia doméstica. Os fundos estão comprados em setores que se beneficiam da demanda externa, como exportadores, commodities, transporte e logística, mineração, siderurgia e papel e celulose, e vendidos em ações mais sensíveis à atividade interna e a juros locais mais altos.
A postura mais cautelosa também responde ao calendário eleitoral, que deve pesar sobre os ativos brasileiros nos próximos meses. A Kapitalo trabalha com uma disputa competitiva e sem cenário claro até a votação, o que torna difícil assumir direção definida nesse intervalo, de modo que a definição da carteira de Brasil depende de o quadro político ganhar contornos mais nítidos.
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No exterior, uma das marcas da gestora, a exposição segue elevada e chega a 70% no Zeta, sem aumento recente. As posições em bolsas globais são pequenas, com leve concentração nos EUA, sustentadas pelo investimento forte em inteligência artificial, que já tende a aparecer nos dados de produtividade da economia americana.
Mesmo assim, os fundos zeraram tecnologia e passaram a setores menos concentrados no segmento, e não entraram no IPO da SpaceX.
No câmbio, a aposta acompanha esse otimismo, com posição levemente comprada em dólar e zerada em real. Os fundos também tiveram ganhos em juros globais ao longo do período, em economias que pagavam taxas altas sem necessidade de mudar o curso da política monetária.
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Em commodities, a exposição está abaixo da média, ainda que os fundos sigam comprados em petróleo, porque a normalização dos fluxos no estreito de Ormuz deve levar tempo mesmo após o acordo anunciado no domingo. Em maio, a casa zerou a posição em ouro, citando o ambiente de juro mais alto e a menor necessidade de diversificação frente ao dólar. No mercado agrícola, mantém posições vendidas em café e trigo.
No conjunto, a Kapitalo reduz risco de forma gradual e mantém a carteira de Brasil ancorada em juros reais e em uma bolsa defensiva, justamente por serem as posições menos dependentes do resultado das urnas. “Se ficarmos convictos de que existe um favorito, a carteira vai mudar”, diz Feijó.