{"id":3453,"date":"2026-06-17T22:31:46","date_gmt":"2026-06-17T22:31:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.revistacomercio.com.br\/index.php\/2026\/06\/17\/os-bastidores-caoticos-do-acordo-entre-eua-e-ira\/"},"modified":"2026-06-17T22:31:46","modified_gmt":"2026-06-17T22:31:46","slug":"os-bastidores-caoticos-do-acordo-entre-eua-e-ira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.revistacomercio.com.br\/index.php\/2026\/06\/17\/os-bastidores-caoticos-do-acordo-entre-eua-e-ira\/","title":{"rendered":"os bastidores \u201cca\u00f3ticos\u201d do acordo entre EUA e Ir\u00e3"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div id=\"\">\n<p>Era noite de luta no jardim da Casa Branca. Sob uma grande estrutura de a\u00e7o apelidada de \u201cGarra\u201d, Justin Gaethje deu um mortal para tr\u00e1s ao sair do oct\u00f3gono montado no centro do Jardim Sul, depois de vencer a luta principal do UFC. Na plateia, o presidente, rec\u00e9m-chegado aos 80 anos, acabara de anunciar que a guerra com o Ir\u00e3 havia terminado e que o Estreito de Ormuz estava aberto.<\/p>\n<p>Horas antes, por volta do momento em que se reunia para um jantar de anivers\u00e1rio com a fam\u00edlia dentro da Casa Branca, Donald Trump publicou nas redes sociais uma mensagem anunciando um acordo para encerrar a guerra com o Ir\u00e3, iniciada por ele quase quatro meses antes: \u201cO acordo com a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica do Ir\u00e3 agora est\u00e1 conclu\u00eddo. Parab\u00e9ns a todos! Autorizo plenamente a abertura sem ped\u00e1gio do Estreito de Ormuz e, simultaneamente, autorizo a remo\u00e7\u00e3o imediata do bloqueio naval dos Estados Unidos\u201d, declarou no Truth Social. \u201cNavios do mundo, deem partida nos motores. Deixem o petr\u00f3leo fluir!\u201d<\/p>\n<p>Mas, como em tantos momentos dessa guerra, a ret\u00f3rica de Trump foi al\u00e9m dos fatos no terreno. O texto ainda n\u00e3o havia sido divulgado, a assinatura formal seguiria a alguns dias de dist\u00e2ncia e as quest\u00f5es mais dif\u00edceis \u2014 nuclear, san\u00e7\u00f5es, L\u00edbano \u2014 foram empurradas para depois.<\/p>\n<div class=\"cta-middle\">\n<div class=\"im-cta\">\n<div class=\"max-w-2xl mx-auto space-y-4 px-6 xl:px-0 my-10\">\n<section class=\"border-8 border-blue-50 rounded-lg pb-6\">\n<div>\n\t\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" class=\"w-full h-full object-cover\" src=\"https:\/\/www.infomoney.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/CIA-com-texto-900x300-1.png?fit=900%2C300&amp;quality=70&amp;strip=all\" alt=\"\">\n\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/section><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>Por pouco isso n\u00e3o foi por \u00e1gua abaixo. Naquela manh\u00e3, por volta das 6h45 em Washington, Israel bombardeou o sul de Beirute \u2014 exatamente o tipo de movimento que negociadores iranianos vinham alertando que implodiria as conversas. Israel disse que respondia a proj\u00e9teis disparados pelo Hezbollah, grupo apoiado por Teer\u00e3.<\/p>\n<p>No Ocidente e no Golfo, cr\u00edticos viram outra coisa: uma \u00faltima tentativa do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de sabotar um acordo do qual havia sido deixado de fora. O Ir\u00e3 hesitou, mas, quatro horas depois, Trump foi \u00e0s redes sociais criticar o ataque israelense, que, segundo ele, \u201cn\u00e3o deveria ter acontecido\u201d.<\/p>\n<p>Sua frustra\u00e7\u00e3o com o parceiro de guerra j\u00e1 n\u00e3o era segredo. Naquela tarde, ele disse \u00e0 <em>Axios <\/em>que a assinatura havia sido adiada por algumas horas por causa dos bombardeios e que ligou para Netanyahu para repreend\u00ea-lo. \u201cEu fiquei muito puto. Fiz ele saber disso\u201d, afirmou, em uma fala recheada de palavr\u00f5es. Em poucos dias, o presidente dos EUA estaria ecoando algumas das cr\u00edticas mais duras feitas a Israel. Mas, antes disso, precisava que o Ir\u00e3 aceitasse assinar.<\/p>\n<p>Tr\u00eas horas depois, Trump tinha em m\u00e3os aquilo que vinha prometendo havia meses: um acordo \u2014 ou, ao menos, o esbo\u00e7o de um. N\u00e3o havia detalhes al\u00e9m de minutas vazadas que sugeriam uma bonan\u00e7a financeira para o Ir\u00e3: dispensas imediatas para o petr\u00f3leo, poss\u00edvel al\u00edvio iminente de san\u00e7\u00f5es e um eventual fundo de reconstru\u00e7\u00e3o de US$ 300 bilh\u00f5es bancado por dinheiro do Golfo. Para Washington, os ganhos eram mais estreitos: reabertura de Ormuz, fim dos combates e mais uma promessa de que o Ir\u00e3 n\u00e3o buscaria uma arma nuclear.<\/p>\n<p>A guerra j\u00e1 havia custado aos EUA dezenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares, pressionado os estoques de muni\u00e7\u00e3o e as alian\u00e7as do pa\u00eds, feito disparar os pre\u00e7os nos postos e abalado o mercado global de energia \u2014 tudo isso para chegar a um acordo que corre o risco de ficar aqu\u00e9m do JCPOA firmado pelo presidente Barack Obama, que Trump sempre criticou e rasgou em seu primeiro mandato.<\/p>\n<p>Enquanto a arena era esvaziada no Jardim Sul, Trump se preparava para voar para a reuni\u00e3o do G7 em Evian, na Fran\u00e7a, onde l\u00edderes europeus estavam prontos para elogiar um acordo que nem haviam lido.<\/p>\n<div data-ds-component=\"ad\" data-ad-type=\"RETANGULO_BF\" class=\"max-w-2xl [&amp;_iframe]:mx-auto z-0 bg-wl-neutral-50 text-xs leading-4 py-4 px-14 text-center text-wl-neutral-500 mx-auto mb-6 xl:px-0 justify-center min-h-[320px]\">\n<p class=\"py-2\">Continua depois da publicidade<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p>Este relato \u00e9 baseado em entrevistas com autoridades ocidentais e do Oriente M\u00e9dio familiarizadas com as negocia\u00e7\u00f5es, que pediram anonimato para discutir temas sens\u00edveis, al\u00e9m de rascunhos de linguagem, pontos de comunica\u00e7\u00e3o da Casa Branca e relatos contempor\u00e2neos dos esfor\u00e7os de media\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto lutadores de UFC respingavam sangue na lona em frente \u00e0 Casa Branca, mediadores do Catar estavam em Teer\u00e3 enfrentando 17 horas de diplomacia de vai e vem, carregando mensagens entre autoridades iranianas e americanos, segundo pessoas a par das discuss\u00f5es. Era o \u00e1pice de quatro semanas de media\u00e7\u00e3o discreta conduzida pelo rico pa\u00eds do Golfo a pedido dos dois lados, ambos em busca de um acordo para encerrar uma guerra que se tornara um fardo dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>At\u00e9 meados de maio, o Catar havia exercido um papel coadjuvante, ao lado de Paquist\u00e3o, Egito e Turquia, na busca por uma sa\u00edda. Doha h\u00e1 muito se tornara indispens\u00e1vel como intermedi\u00e1ria regional, mas evitava liderar diretamente esse processo, em parte porque Teer\u00e3 havia atacado o pa\u00eds e seus vizinhos do Golfo, inclusive atingindo a instala\u00e7\u00e3o de g\u00e1s natural liquefeito de Ras Laffan, avaliada em US$ 20 bilh\u00f5es, disseram essas pessoas. Mas, depois que Teer\u00e3 e Washington pediram um envolvimento mais direto, o Catar enviou secretamente uma delega\u00e7\u00e3o a Teer\u00e3 \u2014 via Turquia, para evitar ser detectado \u2014 liderada pelos altos mediadores Ali al-Thawadi e Hamad al-Kubaisi, para entender melhor a posi\u00e7\u00e3o iraniana.<\/p>\n<div data-ds-component=\"ad\" data-ad-type=\"RETANGULO_BF\" class=\"max-w-2xl [&amp;_iframe]:mx-auto z-0 bg-wl-neutral-50 text-xs leading-4 py-4 px-14 text-center text-wl-neutral-500 mx-auto mb-6 xl:px-0 justify-center min-h-[320px]\">\n<p class=\"py-2\">Continua depois da publicidade<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p>Eles estavam em Teer\u00e3 desenhando os contornos de um acordo em 17 de maio quando Trump voltou a levantar publicamente a hip\u00f3tese de bombardear o Ir\u00e3, escrevendo no Truth Social que \u201co rel\u00f3gio est\u00e1 correndo\u201d para Teer\u00e3. No dia seguinte, afirmou que havia mandado os militares cancelarem \u201co ataque programado ao Ir\u00e3 para amanh\u00e3\u201d, a pedido dos l\u00edderes de Catar, Ar\u00e1bia Saudita e Emirados \u00c1rabes Unidos, porque \u201cnegocia\u00e7\u00f5es s\u00e9rias est\u00e3o em andamento\u201d.<\/p>\n<p>Em 19 de maio, os catarianos voaram diretamente para Washington, novamente sem publicidade, onde se reuniram com o vice-presidente JD Vance e com os principais negociadores de Trump, o genro Jared Kushner e o magnata do setor imobili\u00e1rio Steve Witkoff.<\/p>\n<p>Pouco depois de partirem, segundo essas pessoas, catarianos e paquistaneses foram avisados por dois pa\u00edses ocidentais de que Israel cogitava atacar o Ir\u00e3. Seria mais um poss\u00edvel fator de sabotagem, mas, ap\u00f3s interven\u00e7\u00e3o dos EUA, Israel recuou. Os catarianos voltaram a pousar em Teer\u00e3 em 22 de maio, depois acompanhados pelo chefe do Ex\u00e9rcito do Paquist\u00e3o, marechal de campo Asim Munir, que passou horas em discuss\u00f5es com o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, e com o chanceler Abbas Araghchi.<\/p>\n<div data-ds-component=\"ad\" data-ad-type=\"RETANGULO_BF\" class=\"max-w-2xl [&amp;_iframe]:mx-auto z-0 bg-wl-neutral-50 text-xs leading-4 py-4 px-14 text-center text-wl-neutral-500 mx-auto mb-6 xl:px-0 justify-center min-h-[320px]\">\n<p class=\"py-2\">Continua depois da publicidade<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p>As quest\u00f5es centrais eram a exig\u00eancia do Ir\u00e3 de um compromisso para encerrar permanentemente a guerra, a disposi\u00e7\u00e3o de Teer\u00e3 para discutir a entrega de seu ur\u00e2nio altamente enriquecido e o destino do Estreito de Ormuz. O Ir\u00e3 concordou em se comprometer a discutir a dilui\u00e7\u00e3o do ur\u00e2nio ou a entrega do estoque. Em troca, os EUA aceitaram um processo gradual de al\u00edvio de san\u00e7\u00f5es, atrelado ao avan\u00e7o das negocia\u00e7\u00f5es rumo a um acordo final \u2014 uma linha de vida financeira extraordin\u00e1ria para um regime sob forte press\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Dois dias depois, Ghalibaf e Araghchi voaram para Doha, junto com o presidente do banco central iraniano. Mas deixaram o pa\u00eds sem assinar. Em Washington, Trump come\u00e7ava a ficar cada vez mais impaciente, ent\u00e3o os catarianos viajaram para Miami, onde passaram um dia em conversas com Witkoff e Kushner, numa tentativa de manter o processo nos trilhos.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a invas\u00e3o israelense ao L\u00edbano seguia contaminando as negocia\u00e7\u00f5es com o Ir\u00e3. O conflito j\u00e1 havia matado milhares de pessoas e deslocado mais de 1 milh\u00e3o \u2014 um quinto da popula\u00e7\u00e3o \u2014, enquanto o fogo do Hezbollah mantinha o norte de Israel sob amea\u00e7a, e Netanyahu insistia em ter total autonomia para prosseguir com a guerra.<\/p>\n<div data-ds-component=\"ad\" data-ad-type=\"RETANGULO_BF\" class=\"max-w-2xl [&amp;_iframe]:mx-auto z-0 bg-wl-neutral-50 text-xs leading-4 py-4 px-14 text-center text-wl-neutral-500 mx-auto mb-6 xl:px-0 justify-center min-h-[320px]\">\n<p class=\"py-2\">Continua depois da publicidade<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p>Ao longo de maio, a irrita\u00e7\u00e3o de Trump foi mudando de Teer\u00e3 para Jerusal\u00e9m. Netanyahu, respaldado por amplo apoio interno, insistia em continuar bombardeando o L\u00edbano. \u00c0 medida que Israel ampliava sua campanha, Trump explodiu em uma liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica repleta de palavr\u00f5es com o premi\u00ea israelense, na qual disse que Netanyahu estava \u201clouco\u201d, segundo informou primeiro a Axios e depois foi confirmado pelo pr\u00f3prio presidente.<\/p>\n<p>Mas as negocia\u00e7\u00f5es continuavam nos bastidores. A guerra, que nunca teve apoio amplo nos EUA, se tornava cada vez mais dif\u00edcil de defender, \u00e0 medida que a infla\u00e7\u00e3o acelerava em maio para o ritmo mais forte em mais de tr\u00eas anos, em meio ao salto dos pre\u00e7os dos combust\u00edveis.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio do conflito, o fechamento do Estreito de Ormuz e os ataques iranianos \u00e0 infraestrutura energ\u00e9tica regional fizeram os pre\u00e7os do petr\u00f3leo oscilarem violentamente, mesmo depois de um primeiro cessar-fogo ter sido acertado em abril. Embora os pre\u00e7os tenham recuado nas \u00faltimas semanas \u00e0 medida que os dois lados negociavam um acordo de paz, tanto o petr\u00f3leo bruto quanto a gasolina nos postos seguem bem acima dos n\u00edveis de antes da guerra.<\/p>\n<p>Trump soava cada vez mais disposto a fechar um acordo \u2014 qualquer acordo \u2014 para encerrar o inc\u00eandio que amea\u00e7ava consumir seu segundo mandato. Pesquisas mostram que os americanos est\u00e3o cada vez mais insatisfeitos com sua condu\u00e7\u00e3o da economia, o que coloca o Partido Republicano sob risco de perder o controle do Congresso nas elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato em novembro.<\/p>\n<p>\u201cO \u00fanico presidente que eu n\u00e3o queria ser era o grande e saudoso Herbert Hoover. Eu n\u00e3o queria isso, e quem sabe o que poderia ter acontecido\u201d, disse Trump na quarta-feira.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o Ir\u00e3 \u2014 com a c\u00fapula ferida e as for\u00e7as armadas desgastadas \u2014 preparava sua pr\u00f3pria narrativa de vit\u00f3ria. A guerra matou o l\u00edder supremo e diversos integrantes do alto escal\u00e3o do regime, al\u00e9m de expor a vulnerabilidade da Rep\u00fablica Isl\u00e2mica. Mas o pa\u00eds sobreviveu e, ao fazer isso, revelou novas for\u00e7as que levaram a um poss\u00edvel acordo que poderia ser apresentado legitimamente como um triunfo: vendas de petr\u00f3leo, al\u00edvio de san\u00e7\u00f5es e dinheiro para reconstru\u00e7\u00e3o antes mesmo de a quest\u00e3o nuclear ser resolvida.<\/p>\n<p>A primeira semana de junho quase destruiu as negocia\u00e7\u00f5es \u2014 Israel e L\u00edbano chegaram a um cessar-fogo, mas Hezbollah e Ex\u00e9rcito israelense continuaram trocando tiros. Em seguida, Israel atacou Beirute e come\u00e7ou a trocar fogo com o Ir\u00e3. No dia seguinte, Trump, claramente frustrado por ter de pressionar Netanyahu p\u00fablica e privadamente para recuar no L\u00edbano, disse ao\u00a0<em>Financial Times<\/em>\u00a0que o premi\u00ea israelense seria for\u00e7ado a aceitar qualquer acordo que ele fechasse. \u201cQuem manda em tudo sou eu\u201d, afirmou. Segundo relatos, ele ligou para Netanyahu naquela noite para exigir recuo. Mas Israel voltou a atacar o Ir\u00e3 na manh\u00e3 seguinte, e Trump reapareceu no Truth Social exigindo o fim dos combates.<\/p>\n<p>Depois, em 9 de junho, um helic\u00f3ptero Apache americano caiu perto do estreito ap\u00f3s ser atingido por um drone iraniano, e Trump prometeu retaliar. Os dois lados trocaram fogo nas duas noites seguintes e, no dia 11, os EUA atingiram alvos no sul do Ir\u00e3 \u2014 quando a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica fechou seu espa\u00e7o a\u00e9reo, os mediadores do Catar ficaram presos na pista.<\/p>\n<p>Ainda assim, conseguiram sair e, quando chegaram a Doha, l\u00edderes regionais pressionaram Trump a adiar novos ataques, tentando convenc\u00ea-lo de que um bom acordo estava quase finalizado. Netanyahu deixou uma reuni\u00e3o com ministros-chave para atender uma liga\u00e7\u00e3o de Trump avisando que um acordo estava pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Dois dias depois, enquanto o lutador Ilia Topuria empurrava Gaethje durante uma coletiva em frente ao Lincoln Memorial, Trump disse que o acordo seria assinado no domingo \u2014 e os negociadores catarianos voltaram a Teer\u00e3 para um \u00faltimo esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Ao longo de 17 horas de negocia\u00e7\u00f5es, a equipe de Doha amea\u00e7ou v\u00e1rias vezes ir embora enquanto os iranianos pressionavam por mais ajustes na linguagem do acordo-quadro, disseram essas pessoas. Eles estavam \u00e0 beira de um entendimento quando Netanyahu fez o movimento que quase implodiu tudo. Ataques a\u00e9reos israelenses atingiram o sul de Beirute em resposta a disparos do Hezbollah contra o norte de Israel.<\/p>\n<p>A jogada saiu pela culatra \u2014 Trump pediu que Israel parasse, e os EUA ofereceram a Teer\u00e3 um ado\u00e7ante de \u00faltima hora, segundo uma dessas pessoas: Washington retiraria imediatamente seu bloqueio aos portos iranianos, em vez da retirada gradual em 30 dias prevista nos termos originais.<\/p>\n<p>Em Israel, a rea\u00e7\u00e3o foi furiosa \u2014 pol\u00edticos de todo o espectro ideol\u00f3gico criticaram Netanyahu por transformar o pa\u00eds em um vassalo dos EUA e classificaram sua condu\u00e7\u00e3o do conflito como um fracasso total. Tamb\u00e9m denunciaram a \u201ctrai\u00e7\u00e3o\u201d de Trump. O premi\u00ea vinha defendendo a guerra havia d\u00e9cadas, argumentando que sua rela\u00e7\u00e3o estreita com Trump era a \u00fanica forma de garantir o futuro de Israel. Agora, com elei\u00e7\u00f5es previstas para este outono \u2014 que tamb\u00e9m podem definir seu destino em um longo processo por corrup\u00e7\u00e3o \u2014, essa proximidade virou um passivo.<\/p>\n<p>Netanyahu havia deixado discretamente de lado a exig\u00eancia inicial de Israel de que qualquer acordo inclu\u00edsse medidas significativas para conter o programa de m\u00edsseis e a rede de aliados armados do Ir\u00e3, apostando que a guerra j\u00e1 teria enfraquecido bastante esses dois pilares. Israel conta que o acordo final exigir\u00e1 a retirada do ur\u00e2nio altamente enriquecido iraniano do pa\u00eds, segundo uma pessoa familiarizada com o pensamento das autoridades, e veria qualquer coisa aqu\u00e9m disso como fracasso. Mas Netanyahu prometeu aos israelenses que os protegeria do Hezbollah, grupo que publicamente defende a destrui\u00e7\u00e3o de Israel e disparou milhares de foguetes pela fronteira.<\/p>\n<p>Netanyahu levou um dia inteiro para comentar publicamente o acordo e, quando falou, tentou enfatizar sua independ\u00eancia. \u201cH\u00e1 casos em que o presidente Trump e eu n\u00e3o vemos as coisas da mesma forma\u201d, disse em uma coletiva na segunda-feira.<\/p>\n<p>Trump deixava isso cada vez mais claro. Na ter\u00e7a-feira, o presidente chegou perto de ecoar os cr\u00edticos mais duros do premi\u00ea. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o precisa derrubar um pr\u00e9dio residencial toda vez que est\u00e1 procurando algu\u00e9m\u201d, disse Trump \u00e0s margens do G7. \u201cH\u00e1 muita gente nesses pr\u00e9dios e nem todos s\u00e3o Hezbollah.\u201d<\/p>\n<p>Em Evian, os aliados dos EUA estavam praticamente no escuro e preferiram manter um tom leve. O objetivo deles era n\u00e3o irritar Trump, focar no Ir\u00e3 e deixar em privado as reservas que tinham sobre o acordo. Em certo momento, enquanto esperavam sua chegada para uma sess\u00e3o de trabalho, a italiana Giorgia Meloni contou ao grupo como havia parado de fumar. V\u00e1rios ali j\u00e1 haviam batido de frente com Trump e queriam reconstruir pontes. Ela era uma delas.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Trump estava de bom humor. O canadense Mark Carney, cujo pa\u00eds Trump gosta de chamar de 51\u00ba estado americano, trocou uma piada com o vizinho do sul. Ele foi visto apontando que o anfitri\u00e3o Emmanuel Macron havia deixado o rel\u00f3gio sobre a mesa. \u201cMe d\u00e1\u201d, brincou Trump.<\/p>\n<p>De volta aos EUA, o governo Trump tentava vender um acordo que, para muitos observadores, soava como uma derrota retumbante para Washington. A administra\u00e7\u00e3o elaborou pontos de comunica\u00e7\u00e3o sobre o memorando com cinco mensagens principais: o Ir\u00e3 nunca ter\u00e1 arma nuclear; Trump encerrou os combates em todas as frentes, inclusive no L\u00edbano; as \u201crecompensas\u201d ao Ir\u00e3 n\u00e3o viriam do contribuinte americano; Ormuz estaria aberto e sem ped\u00e1gio; e o fato de que \u201cObama nunca conseguiu nem um documento assinado\u201d.<\/p>\n<p>Em Teer\u00e3, a m\u00eddia estatal apresentou o acordo-quadro como prova de que o Ir\u00e3 havia colocado EUA e Israel de joelhos. O regime pagou caro, mas resistiu \u00e0s maiores pot\u00eancias militares da regi\u00e3o e do mundo e, ap\u00f3s quatro meses de guerra, emergiu ferido, mas em ao menos um aspecto mais forte do que antes, com uma arma econ\u00f4mica talvez mais importante do que qualquer bomba nuclear \u2014 um bot\u00e3o de liga e desliga sobre o Estreito de Ormuz.<\/p>\n<p>At\u00e9 domingo, havia em m\u00e3os um acordo que poderia levar \u00e0 suspens\u00e3o de san\u00e7\u00f5es e ao desbloqueio de bilh\u00f5es em ativos \u2014 via Catar. Em troca, o Ir\u00e3 s\u00f3 precisaria concordar em abandonar sua ambi\u00e7\u00e3o por armas nucleares, algo que j\u00e1 havia feito uma d\u00e9cada antes no acordo com Obama.<\/p>\n<p>Quando j\u00e1 se preparava para seguir rumo a um jantar digno de rei no Pal\u00e1cio de Versalhes, o presidente manteve todos na d\u00favida sobre se poderia aparecer pessoalmente na assinatura.<\/p>\n<p>\u201cAssim, se der certo, eu levo o cr\u00e9dito\u201d, disse Trump. \u201cSe der errado, vou culpar o JD.\u201d<\/p>\n<p>\u00a9 2026 Bloomberg L.P.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.infomoney.com.br\/web-stories\/estude-no-exterior\/\" width=\"360\" height=\"600\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>        <\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.infomoney.com.br\/mundo\/se-der-certo-levo-o-credito-os-bastidores-caoticos-do-acordo-entre-eua-e-ira\/\">Fonte: Jovem Pan <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era noite de luta no jardim da Casa Branca. Sob uma grande estrutura de a\u00e7o apelidada de \u201cGarra\u201d, Justin Gaethje deu um mortal para tr\u00e1s ao sair do oct\u00f3gono montado no centro do Jardim Sul, depois de vencer a luta principal do UFC. 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