{"id":1172,"date":"2026-02-11T12:16:03","date_gmt":"2026-02-11T12:16:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.revistacomercio.com.br\/?p=1172"},"modified":"2026-02-11T12:16:05","modified_gmt":"2026-02-11T12:16:05","slug":"filha-de-mecanico-engenheira-contraria-o-pai-e-abre-a-propria-oficina-em-alagoas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.revistacomercio.com.br\/index.php\/2026\/02\/11\/filha-de-mecanico-engenheira-contraria-o-pai-e-abre-a-propria-oficina-em-alagoas\/","title":{"rendered":"Filha de mec\u00e2nico, engenheira contraria o pai e abre a pr\u00f3pria oficina em Alagoas"},"content":{"rendered":"\n<p>Ela cresceu em meio ao barulho de ferramentas, \u00f3leo de motor e pe\u00e7as espalhadas pela oficina do pai, em Campo Alegre.\u00a0<strong>Aline Ferro<\/strong>\u00a0teve a oportunidade de se tornar advogada, mas largou tudo para fazer o que realmente gosta: mec\u00e2nica de autom\u00f3veis. Hoje a engenheira mec\u00e2nica \u00e9 um exemplo de inspira\u00e7\u00e3o para outras\u00a0mulheres\u00a0que atuam no segmento automotivo em Arapiraca (AL).<\/p>\n\n\n\n<p>Para realizar o sonho de abrir a sua pr\u00f3pria oficina, Aline passou por cima dos estere\u00f3tipos de g\u00eanero e quebrou as expectativas da fam\u00edlia para mostrar que a paix\u00e3o pode ser a principal ferramenta para a realiza\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>A oficina do pai, Jos\u00e9 Petr\u00facio Correia, foi o principal sustento da grande fam\u00edlia de Aline Ferro, que tem 15 irm\u00e3os. A rotina dos servi\u00e7os mec\u00e2nicos sempre fizeram parte da vida da fam\u00edlia, tanto que a maioria resolveu seguir a profiss\u00e3o do patriarca, com exce\u00e7\u00e3o de cinco: uma costureira, um policial militar, um motorista, uma dona de casa e uma psic\u00f3loga. Mas os planos do mec\u00e2nico para a filha Aline, que na adolesc\u00eancia ajudava na oficina, lavando pe\u00e7as e fazendo outros servi\u00e7os simples, tamb\u00e9m eram diferentes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Livros deram lugar a ferramentas<\/h2>\n\n\n\n<p>Ao concluir o ensino m\u00e9dio, a jovem foi aprovada no curso de direito, mas o que seria o in\u00edcio da realiza\u00e7\u00e3o do sonho de Jos\u00e9 Petr\u00facio durou pouco. Nas f\u00e9rias, durante uma visita aos irm\u00e3os que moram no Rio de Janeiro, tudo mudou. \u201cViajei para passar 15 dias e quando estava perto de voltar, meu irm\u00e3o mais velho me perguntou se eu queria ficar por l\u00e1 de vez. Ele sugeriu que eu fizesse engenharia mec\u00e2nica e falou sobre um vestibular que aconteceria em poucos dias. Fiz a prova e passei\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a de planos, no entanto, n\u00e3o agradou Jos\u00e9 Petr\u00facio. Quando telefonou para os pais para contar da decis\u00e3o, ele ficou chateado e se recusou a falar com a filha, mesmo quando ela voltava para casa durante as f\u00e9rias. \u201cEra como se n\u00e3o tivesse ningu\u00e9m ali, ele simplesmente me ignorava\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim ela seguiu em frente, com o apoio da m\u00e3e, dos irm\u00e3os e do namorado que conheceu em um cursinho pr\u00e9-vestibular, que anos depois se tornaria seu marido.<\/p>\n\n\n\n<p>O afastamento entre pai e filha durou todos os quatro anos de faculdade, entre 2012 e 2017, mas a reconcilia\u00e7\u00e3o aconteceu durante a formatura dela. \u201cNa verdade n\u00e3o tivemos uma conversa sobre isso. N\u00e3o foi preciso. Ele chegou de surpresa na minha formatura e comemorou comigo. Depois foi como se nada tivesse acontecido\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Apoio contra o preconceito de g\u00eanero dentro da oficina<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar de atuar numa profiss\u00e3o majoritariamente masculina e machista, Aline contou com o apoio dos irm\u00e3os, que evitaram situa\u00e7\u00f5es em que ela pudesse sofrer preconceito de g\u00eanero. Ainda na faculdade, ela ajudava os irm\u00e3os na oficina de tratores e outras m\u00e1quinas pesadas. A confian\u00e7a deles no trabalho dela fez com que ela se sentisse segura e \u201cblindada\u201d contra o machismo. \u201cEu sei que tem muito preconceito contra mulher que atua nessa \u00e1rea. Muitos homens n\u00e3o acreditam que n\u00f3s somos capazes de fazer os mesmos servi\u00e7os que eles fazem, porque \u00e9 um trabalho pesado, mas a \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 a for\u00e7a f\u00edsica. S\u00f3 que hoje existem ferramentas e equipamentos que reduzem o esfor\u00e7o f\u00edsico e possibilitam que a gente trabalhe de igual para igual\u201d, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a formatura, Aline retornou para Arapiraca e chegou a dar aulas de Engenharia Mec\u00e2nica em uma faculdade em Macei\u00f3 e fez mestrado na mesma \u00e1rea, mas ela s\u00f3 se sentia realizada mesmo dentro da oficina. Ap\u00f3s o casamento e a gravidez do primeiro filho, trocou as viagens constantes a Macei\u00f3 por um espa\u00e7o cedido na oficina do irm\u00e3o, em Campo Alegre, em 2021. Desse per\u00edodo, ela conta que lembra apenas de duas ocasi\u00f5es em que foi alvo de preconceito escancarado por ser mulher e atuar em servi\u00e7o automotivo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUm cliente chegou na oficina para trocar o cal\u00e7o do motor e quando viu que era eu que iria fazer o servi\u00e7o, disse que eu n\u00e3o iria mexer no carro dele, e que queria que o Daniel fizesse o servi\u00e7o, mas meu irm\u00e3o se recusou a fazer, para me apoiar\u201d, contou.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outra situa\u00e7\u00e3o mais recente, em que precisou comprar uma pe\u00e7a para fazer um servi\u00e7o, o vendedor tentou engan\u00e1-la por achar que ela n\u00e3o entendia do assunto. Entregou uma pe\u00e7a diferente das especifica\u00e7\u00f5es que ela pediu e duvidou que ela soubesse usar o instrumento para tirar as medidas da pe\u00e7a. \u201cQuando eu usei o paqu\u00edmetro e expliquei detalhadamente porque a pe\u00e7a que ele me entregou n\u00e3o servia, ele perdeu o sorriso de deboche e s\u00f3 ent\u00e3o acreditou que eu entendia do que estava falando. Eu n\u00e3o revidei, porque n\u00e3o sou capaz de fazer isso. Mas \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que cansa, porque se fosse um homem, seria diferente\u201d, falou.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Elas no Volante e o empoderamento das mulheres no automotivo<\/h2>\n\n\n\n<p>Mesmo lembrando somente dessas situa\u00e7\u00f5es, Aline Ferro conhece muitas outras hist\u00f3rias de mulheres que sofreram preconceito por trabalhar no servi\u00e7o automotivo. Ela \u00e9 uma das integrantes do grupo \u201cElas no Volante\u201d, uma iniciativa do Sebrae para fortalecer a participa\u00e7\u00e3o feminina no segmento e que hoje re\u00fane mais de 40 mulheres que trabalham no setor automotivo em munic\u00edpios do Agreste.<\/p>\n\n\n\n<p>Como uma das principais incentivadoras, ela mostra que \u00e9 poss\u00edvel exercer um trabalho considerado masculino, mas sem perder a feminilidade. \u201cClaro que n\u00e3o d\u00e1 para ter a unha feita o tempo todo fazendo esse tipo de trabalho, mas o fato de ficar suja de graxa n\u00e3o significa que sou uma mulher masculinizada. Gosto de mostrar isso para as outras mulheres que trabalham nesse setor, que n\u00e3o \u00e9 o nosso trabalho que define a nossa feminilidade\u201d, ressalta.<\/p>\n\n\n\n<p>No grupo, elas trocam experi\u00eancias, criam amizades e se apoiam mutuamente. Criado em 2024, o programa pretende realizar novos encontros em 2026. \u201cO Mulheres no Volante foi criado quando percebemos que o setor automotivo \u00e9 formado tamb\u00e9m por mulheres e que elas precisam ter voz. Pela primeira vez elas tiveram suas dores ouvidas, porque n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil atuar em um meio em sua maioria feminino e cercado de estere\u00f3tipos \u201c, explica Stheffany L\u00f3z, trainee do Sebrae e gestora do grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ela, al\u00e9m de se tornar um meio para forma\u00e7\u00e3o empreendedora dessas profissionais, o grupo tamb\u00e9m se tornou um ponto de apoio. \u201cElas perceberam que as dificuldades que elas enfrentam s\u00e3o comuns a todas e, ent\u00e3o passaram a se apoiar, trocar ideias, criar amizades e parcerias, tornando o ambiente das oficinas mec\u00e2nicas n\u00e3o s\u00f3 mais amig\u00e1vel para elas como tamb\u00e9m para as clientes\u201d, ressalta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao se render \u00e0 paix\u00e3o de lidar com motores e afins, Aline Ferro descobriu no Sebrae um grande apoiador em sua trajet\u00f3ria. Antes do grupo Mulheres no Volante, ela j\u00e1 havia contado com o apoio da institui\u00e7\u00e3o para se formalizar como microempreendedor individual (MEI) e participando de capacita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s passar anos trabalhando em um espa\u00e7o cedido pelo irm\u00e3o na oficina dele em Campo Alegre, o Sebrae tamb\u00e9m estava junto quando ela decidiu abrir sua pr\u00f3pria oficina, meses atr\u00e1s. A virada de chave aconteceu em junho, durante a viagem da caravana de Arapiraca para o Alagoas Summit, que aconteceu em Macei\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cLogo no in\u00edcio da viagem, fizeram algumas apresenta\u00e7\u00f5es no \u00f4nibus e uma psic\u00f3loga achou interessante saber que eu trabalho com mec\u00e2nica e sentou ao meu lado. Quando ela perguntou porque eu n\u00e3o tenho uma oficina em Arapiraca, eu n\u00e3o soube responder. Percebi que n\u00e3o tinha l\u00f3gica eu viajar todos os dias para Campo Alegre se posso trabalhar aqui, onde eu moro. Voltei da viagem decidida a abrir minha oficina. Junto com meu marido e irm\u00e3o, levantei as pilastras e equipei com as ferramentas necess\u00e1rias para come\u00e7ar\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de possibilitar trabalhar praticamente em casa, a<strong>&nbsp;Ferro Oficina Automotiva<\/strong>&nbsp;tamb\u00e9m vai possibilitar aumentar a fam\u00edlia. Ela e o marido planejam ter mais um filho em breve, e Aline garante que \u00e9 poss\u00edvel conciliar o trabalho com a maternidade. \u201cCom as ferramentas necess\u00e1rias, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio fazer esfor\u00e7o e d\u00e1 para trabalhar durante a gravidez. Fiz isso quando tive meu primeiro filho, e com os planos de ter mais um, trabalhar na minha pr\u00f3pria oficina facilita muito. Posso fazer meu hor\u00e1rio de trabalho, se precisar, posso cuidar deles durante o dia e trabalhar \u00e0 noite, para entregar o servi\u00e7o cedinho no outro dia\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, aos 38 anos, Aline Ferro se sente realizada na vida profissional e pessoal. O pai, que inicialmente se op\u00f4s \u00e0 decis\u00e3o dela de atuar na \u00e1rea automotiva, hoje \u00e9 um grande parceiro, mesmo com a idade avan\u00e7ada. \u201cMesmo com 82 anos, pe\u00e7o a ajuda dele em alguns servi\u00e7os. \u00c0s vezes chega algum carro antigo, como fusca e kombi, e ele vem com todo amor me ajudar\u201d, conta, com orgulho.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/revistapegn.globo.com\/mulheres-empreendedoras\/noticia\/2026\/01\/filha-de-mecanico-engenheira-contraria-o-pai-e-abre-a-propria-oficina-em-alagoas.ghtml\">PEGN<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela cresceu em meio ao barulho de ferramentas, \u00f3leo de motor e pe\u00e7as espalhadas pela oficina do pai, em Campo Alegre.\u00a0Aline Ferro\u00a0teve a oportunidade de se tornar advogada, mas largou tudo para fazer o que realmente gosta: mec\u00e2nica de autom\u00f3veis. 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