Fluxo estrangeiro muda de rota? O que esperar do mercado com decisões da Super Quarta

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    Em mais uma Super Quarta, as expectativas do mercado sobre as reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil (Copom) e do Federal Open Market Comittee do Federal Reserve dos EUA (FOMC) tem mais a ver com as próximas movimentações das instituições do que efetivamente do que acontecerá nesta quarta-feira (17).

    Para essa reunião, entretanto, a expectativa para as decisões de juros em si já estão acomodadas. De maneira geral, os mercados esperam que o Copom mantenha o corte de 0,25 pontos percentuais na Selic. Nos Estados Unidos, a leitura majoritária do mercado sugere manutenção da taxa.

    Para Thiago Pedroso, analista da Criteria, de maneira geral, não haverá muita novidade sobre as decisões sobre os juros, já precificados. A atenção, por sua vez, deverá se voltar para o que vem a seguir. “Tanto nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil, a sinalização sobre os próximos passos vai ser muito mais importante do que a decisão em si”, explica.

    É a mesma visão de Leonardo Costa, economista do ASA, que considera que parte desses riscos já era conhecida antes da reunião, que havia optado por seguir via calibragem de juros, o que sinalizava, implicitamente, um ciclo curto de cortes. “Assim, a volatilidade externa é apenas mais uma fonte de informação num cenário já turbulento”, entende.

    FOMC

    De acordo com o analista, as expectativas dirigentes do Banco Central americano vão dar sinais bem importantes para o futuro, assim como o discurso do Kevin Warsh, o primeiro durante uma Super Quarta desde que assumiu a cadeira de presidente do Fed.

    “Ele [Warsh] deve vir com uma linguagem mais neutra, o que deve sustentar o apetite de risco dos mercados, apesar de já estarem subindo”, diz Pedroso. Para o analista, os mercados já estão precificando essa inclinação, com o fim da guerra.

    As taxas de juros quase certamente serão mantidas inalteradas pelo FOMC na quarta-feira, mas o forte desacordo entre os membros votantes sobre o próximo passo da política monetária estará no centro das atenções, explica Matthew Ryan, head de estratégia de mercado global da Ebury.

    “Qualquer sinal mais dovish de Kevin Warsh do que o sugerido pelo dot plot pode comprometer a credibilidade do novo presidente. O caminho mais provável é adotar um tom simples e prudente: respeitar o comitê, evitar viés direcional, tratar os riscos de inflação e emprego como equilibrados e reforçar que as próximas decisões dependerão dos dados”, diz Beto Saadia, economista-chefe da Nomos.

    As mudanças no comunicado do Federal Reserve tendem a refletir um reposicionamento mais cauteloso da autoridade monetária, especialmente após sinais de dissenso interno observados na reunião anterior. Na ocasião, três membros já haviam se oposto à manutenção do viés dovish presente na expressão “in considering the extent and timing of additional adjustments”, defendida por Powell sem grande convicção.

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    Segundo Saadia, essa formulação passou a destoar do cenário atual, em que a resiliência da economia norte-americana reduz o espaço para sinalizações antecipadas de afrouxamento. Nesse sentido, a retirada do trecho e sua substituição por uma linguagem mais neutra indicaria uma estratégia de maior flexibilidade, evitando compromissos explícitos diante da incerteza.

    Além disso, a composição do comitê reforça a expectativa de um comunicado mais homogêneo e menos inclinado a cortes de juros no curto prazo, dado que, sem Stephen Miran, desaparece o único nome claramente associado a uma posição mais dovish. Saadia destaca que essa mudança tende a consolidar uma decisão consensual, reduzindo ruídos interpretativos pelo mercado.

    Outro ponto relevante é a provável revisão do diagnóstico sobre o mercado de trabalho: em abril, os ganhos eram caracterizados como “low”, mas a sequência recente de três payrolls acima do esperado exige atualização do tom. Para Saadia, esse ajuste semântico será crucial para alinhar o comunicado aos dados mais recentes, reforçando a mensagem de que o Fed permanece dependente de indicadores antes de qualquer mudança na trajetória dos juros.

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    Copom

    Segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, se o Copom indicar continuidade do ciclo de cortes, setores mais sensíveis aos juros, como varejo, construção civil e consumo doméstico, podem reagir positivamente.

    Caso o comunicado adote um tom mais cauteloso — o que tem sido considerado por alguns analistas como mais provável — e sugerir que o espaço para novos cortes ficou mais restrito, o analista acredita que parte do otimismo já embutido nos preços pode ser revisado.

    A visão de analistas, no geral, é que a reunião do Comitê terá como resultado o corte de 25 pontos-base acompanhada de sinalização de interrupção novos ajustes dependente de dados como o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), de expectativas no exterior e também da taxa de câmbio.

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    Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, entre as expectativas do cenário internacional está, como esperado, o fim da guerra. Mas o economista não acredita que qualquer decisão será formalmente balizada na assinatura de acordo entre EUA e o Irã, ainda que influenciada pelo acerto entre os países. Nesta quarta, em sua visão, os dados nacionais importarão mais.

    “Acredito que a SELIC está em um patamar muito contracionista. Acho que o espaço é muito diminuto, justamente porque o IPCA veio, na verdade, bem ruim, apesar da desaceleração, a composição é bem ruim”, afirma.

    A opinião é acompanhada pelo economista do ASA, que considera que a a deterioração do cenário externo não deve se reverter tão rapidamente, dado o aumento da incerteza causado pelo conflito e a dúvida sobre a duração do próprio acordo. O economista menciona que os acordos de cessar-fogo anteriores não mudaram a dinâmica ou o cenário do conflito nas últimas ocasiões.

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    “As demais condicionantes da postura mais hawkish do Banco Central não se alteram com o acordo. A atividade doméstica segue aquecida, com mercado de trabalho apertado e desemprego em mínimas históricas, enquanto as expectativas de inflação seguem em deterioração, sobretudo no horizonte mais longo (2028, 29)”, diz.

    Assim, diante da meta de 3% e da deterioração contínua do cenário nos últimos meses, o quadro pede mais cautela, a casa segue apostando em apenas mais um corte de 25bps na reunião de junho, com a Selic encerrando 2026 em 14,25%.

    Fluxo estrangeiro

    Outro ponto que deve entrar em pauta é o fluxo estrangeiro no Brasil. Depois de um início de ano forte, com aporte de quase R$ 54 bilhões na B3, a Bolsa brasileira entrou em uma espiral de queda.

    Em maio, 25% do dinheiro estrangeiro que havia entrado na Bolsa brasileira desde o início do ano foi embora.

    Parte desse movimento de entrada foi derivado das previsões positivas para o ciclo de juros no país. Com o ciclo dando sinais de interrupção mais cedo do que o esperado, os investidores mudaram a abordagem.

    Por causa disso, para Rafael Passos, sócio da Ajax Asset, talvez seja importante que o Brasil acompanhe o tom e o ritmo das economias estrangeiras. “Nós temos esses juros caindo na margem aqui no Brasil, ou relativamente estável, e lá fora tem um viés um pouco mais duro”, afirma.

    Desta forma, de acordo com o analista, esse diferencial pode atrapalhar a performance de ativo de risco aqui para o país. Caso a decisão siga de queda adicional no Brasil, por exemplo, a saída de fluxo deve continuar, como reflexo desse diferencial de juros menor.



    Fonte: Jovem Pan