Por que o Ibovespa fechou em queda após chegar a subir mais de 1% com acordo EUA-Irã?

    Relacionados

    Compartilhe


    Após operar durante a manhã com alta de mais de 1%, o Ibovespa passou a cair na tarde desta segunda-feira (15) e fechou em baixa. Mesmo com o otimismo nos mercados globais pela possibilidade mais firme de um acordo entre os Estados Unidos e o Irã, o índice brasileiro recuou 0,42%, aos 170.415 pontos, acompanhando o movimento do petróleo.

    A commodity caiu quase 5% após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar ontem um acordo de paz com o Irã, que deve ser assinado na sexta-feira. O pacto consiste em um cessar-fogo de 60 dias e determina a interrupção permanente das operações militares (incluindo no Líbano), além de exigir a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde transita quase 20% do petróleo mundial.

    Negociado na New York Mercantile Exchange (Nymex), o petróleo WTI para julho fechou em queda de 4,86% (US$ 4,13), a US$ 80,75 o barril. O petróleo Brent para agosto, negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE), encerrou em queda de 4,76% (US$ 4,16) a US$ 83,17 o barril.

    Enquanto isso, o efeito positivo das negociações, que podem encerrar o conflito em curso no Oriente Médio, seria o de aliviar pressões sobre a política monetária — mas não agora, segundo Gabriel Mollo, analista de investimentos da Daycoval Corretora.

    “O alívio externo chega em um momento delicado para a política monetária”, escreve em relatório do Daycoval. Ele cita o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio, que desacelerou, mas ficou ligeiramente acima das expectativas. “Isso reforçou a percepção de que os núcleos de inflação continuam pressionados, enquanto a atividade econômica permanece resiliente.”

    Para Carlos Lopes, economista do BV, o fim dos conflitos entre EUA e Irã deve dar alguma confiança para o Banco Central diminuir a Selic nesta semana, como era a intenção original. “Mas, mesmo com o fim da guerra, acho que será necessário, após o corte desta semana, uma pausa para avaliar os efeitos defasados do choque sobre uma economia que ainda está aquecida e superestimulada pelo gasto público”, diz.

    Além do potencial impacto no médio e longo prazo sobre a inflação global, o acordo também teria o condão de reduzir parte dos prêmios de risco geopolítico incorporados aos mercados globais.

    “Em um primeiro momento, isso favorece ativos de maior risco, especialmente em mercados emergentes, ao mesmo tempo em que reduz a demanda por ativos considerados defensivos, como o dólar e o preço do barril de petróleo”, diz Luciano Carvalho, CEO do Banco Moneycorp.

    Leia mais: Acordo EUA-Irã reduz grande obstáculo para o Ibovespa, mas cenário segue desafiador

    Continua depois da publicidade

    É justamente o movimento da commodity que ajuda a explicar o recuo do Ibovespa nesta tarde, por causa do peso das ações de petroleiras no índice, apesar de a dinâmica favorecer emergentes em um primeiro olhar. Com 12% de sua composição concentrados apenas em PETR4 e PETR3, que recuaram 5,15% e 5,30%, respectivamente, o índice brasileiro sofreu mesmo em um dia de alta de outra commodity relevante.

    O minério de ferro, que fechou com valorização de 0,65% em Dalian, na China, fez os papéis da Vale (VALE3) subirem 2,51% e ajudou a sustentar o Ibovespa durante a manhã. A queda do petróleo, porém, fez com que o índice virasse para queda e fechasse assim.

    Ibovespa a 200 mil?

    Conforme explica Patrick Buss, especialista de renda variável da Manchester Investimentos, se a guerra se resolver, o Ibovespa teria espaço para recuperar a marca de até 195 mil pontos ou, quem sabe, chegar aos 200 mil pontos. Se isso acontecer, diz, ficarão mais claros os efeitos do conflito na evolução do índice. “Agora, se voltar para a faixa dos 180 mil pontos, por exemplo, o ‘fator eleição’ pode ser o motivo”, afirma.

    Continua depois da publicidade

    É a mesma visão de Carvalho, do Moneycorp, que considera possível que haja uma reação positiva no médio prazo, com destaque para setores mais sensíveis ao ciclo econômico e ao apetite por risco. “No Brasil, porém, a sustentação desse movimento continuará condicionada aos fundamentos locais, em especial à política fiscal, à dinâmica inflacionária e ao rumo da política monetária”, conclui.

    Álvaro Maia, banker da Stonex, ressaltou que o fato de que, em um dia em que o externo ajudou, o Ibovespa não conseguiu sustentar alta, já é por si só uma mensagem de mercado.

    Ao mesmo tempo, o comportamento intradiário (abertura forte e deterioração contínua ao longo do dia) reforça a leitura de fluxo ainda frágil e pouco convicto.

    Continua depois da publicidade

    “Do lado de alocação, a história não muda muito: Utilities seguem como um dos poucos consensos positivos, com investidores enxergando valuation descontado e proteção em um cenário ainda incerto. Já o beta (papéis mais voláteis) mais cíclico/local segue travado — faltam gatilhos domésticos para destravar múltiplos”, destaca.

    Maia ressalta que, mesmo com um gatilho global claramente positivo, o Brasil não conseguiu performar. Isso reforça que: 1) ruído fiscal 2) baixa previsibilidade macro 3) e um risco político começam a entrar no radar de forma mais explícita. “Ainda pode haver respiro tático — mas está claro que o potencial de alta é frágil. O mercado continua dependente de externo e altamente sensível a poucos nomes (Petrobras em especial) .Sem catalisador doméstico, qualquer rali tende a ser vendido”, conclui.

    (com Estadão Conteúdo)

    Continua depois da publicidade



    Fonte: Jovem Pan