O persistente mistério da queda da natalidade ganhou um novo possível culpado: o smartphone.
Dois novos estudos — um publicado nesta segunda-feira e outro em maio — são os primeiros trabalhos acadêmicos a testar se os smartphones podem ter sido uma das causas desse fenômeno.
Caitlin Myers, economista do Middlebury College, e seu aluno Ezekiel Hooper aproveitaram a expansão desigual do iPhone nos Estados Unidos para tentar isolar os efeitos do aparelho sobre a fertilidade. O primeiro iPhone foi lançado em junho de 2007 e permaneceu exclusivo da operadora AT&T até fevereiro de 2011. Os pesquisadores compararam as taxas de natalidade em condados com cobertura quase universal da AT&T com aquelas em regiões onde a operadora tinha pouca ou nenhuma presença.
O estudo, publicado pelo National Bureau of Economic Research, concluiu que o iPhone pode ter sido responsável por até metade da queda da fertilidade registrada entre 2007 e 2011. Os efeitos mais fortes foram observados entre jovens de 15 a 24 anos.
Uma das hipóteses levantadas por Myers é que os jovens passaram a socializar mais por meio dos celulares e menos presencialmente, o que teria reduzido a frequência das relações sexuais.
A pesquisadora também sugere que os smartphones podem ter ampliado o acesso à pornografia, levando parte dos jovens a substituírem o sexo por esse tipo de conteúdo. Outra possibilidade é que os aparelhos tenham facilitado o acesso a informações sobre prevenção da gravidez.
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A queda das taxas de natalidade, antes associada principalmente a países ricos, tornou-se um fenômeno quase global. Diante dessa tendência disseminada, pesquisadores passaram a buscar fatores comuns capazes de explicá-la. Os autores do segundo estudo também voltaram sua atenção para os smartphones.
“Países com sistemas de saúde, políticas de bem-estar social, leis sobre aborto, tradições religiosas, recessões e tendências demográficas muito diferentes registraram quedas semelhantes no mesmo período”, escreveram os autores, Hernan Moscoso Boedo, professor de economia da Universidade de Cincinnati, e Nathan Hudson, doutorando na instituição.
A dupla analisou dados do Banco Mundial sobre a disseminação dos smartphones e as taxas de fertilidade entre adolescentes em 128 países. Em nações tão diversas quanto Irã, Costa Rica, Guatemala, Chile, México e Turquia, os pesquisadores encontraram evidências de que a queda da fertilidade entre adolescentes se acelerou quando os smartphones se tornaram um fenômeno de massa.
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Eles também testaram a hipótese tecnológica nos Estados Unidos, utilizando dados sobre acesso à internet banda larga fixa e redes móveis 4G. O resultado mostrou que as taxas de fertilidade entre adolescentes caíram mais rapidamente nos condados com maior acesso à internet de alta velocidade.
Nem todos os especialistas, porém, estão convencidos. Theodore Joyce, economista do Baruch College, afirmou estar cético em relação aos dois estudos. Segundo ele, os nascimentos entre adolescentes já vinham caindo desde a década de 1990, muito antes da popularização dos smartphones e das novas tecnologias digitais.
c.2026 The New York Times Company