O dia 7 de dezembro celebra o Dia do Algodão-Doce, uma guloseima que remete imediatamente a parques e infância. Mas, para Luana Mendonça, 35 anos, a data tem sabor de virada de chave e cifras altas. Fundadora da Magic Algodão, ela transformou a mistura simples de açúcar e ar em uma operação de luxo que deve fechar 2025 com um faturamento de R$ 5 milhões — a marca já ultrapassou a barreira dos R$ 4 milhões este ano.
A trajetória de Mendonça, no entanto, começou longe do glamour das festas de celebridades que hoje atende. Natural de São Gonçalo (RJ), ela cresceu vendo a família lutar no setor de festas populares. A mãe, salgadeira, desenvolveu bursite por esforço repetitivo de tanto enrolar massas para complementar a renda. A mudança de mentalidade da empreendedora veio cedo, aos 14 anos, durante um aniversário, ao fazer uma conta simples.
“Recebi um bem-casado e minha tia disse que era um doce caro. Vi a etiqueta da fornecedora e fiz minha primeira pesquisa de mercado. O doce custava R$ 4,50 em 2004. Minha mãe ganhava R$ 30 por dia trabalhando oito horas. Falei: ‘É isso que a gente vai fazer'”, relembra Mendonça.
Após anos trabalhando com doces tradicionais, a família enfrentou a crise econômica que atingiu o setor naval de sua região, diminuindo drasticamente o poder de compra das classes C e D. Formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mendonça tentou empreender com um quiosque de tapioca em um shopping com o então namorado. O negócio faliu em nove meses, levando todas as suas economias.
A inspiração que veio da China
Sem dinheiro e precisando ajudar em casa, Mendonça foi ao Google pesquisar “doces diferentes e baratos”. Em português, não encontrou nada promissor. Ao buscar em outras línguas, deparou-se com uma foto de um homem segurando uma flor feita de algodão-doce, uma técnica comum na China.
“Quando encontrei aquilo, dei um start. Falei: ‘É uma coisa superdiferente, que eu nunca imaginava ser possível fazer, e é feita de açúcar'”, diz. O começo foi na raça: ela alugou uma máquina errada e perdeu dinheiro, até descobrir o equipamento correto, que comprou parcelado em 20 vezes. Foram quase oito meses de testes para dominar a técnica de escultura em açúcar.
Traumatizada pela crise econômica anterior, Mendonça desenhou a Magic Algodão com uma estratégia clara: blindar-se da instabilidade financeira focando no mercado de luxo (classes A e B).
Sua ousadia a levou a bater na porta — ou melhor, na caixa de entrada — dos maiores assessores de eventos do país. A estratégia funcionou. Sua primeira festa oficial foi o aniversário de um ano de Zoe, filha da apresentadora Sabrina Sato, em dezembro de 2019.
“Moro em São Gonçalo e a festa foi em São Paulo. Peguei um ônibus, vim carregando tudo sozinha, não sabia como ia fazer. Me virei de táxi com todo o material de trabalho. Quando saí de São Paulo, nem dormi, não tinha onde ficar. Peguei o ônibus e voltei”, conta.
O sacrifício valeu a pena. A empreendedora ganhou 3 mil seguidores em dois dias e a marca viralizou. Até março de 2020, ela vivia na ponte aérea rodoviária Rio-SP para atender a demanda crescente.
Quando a pandemia estourou, Mendonça estava em São Paulo e viu o setor de eventos parar. Sua decisão foi estratégica: “fingiu” que a empresa não existia para proteger o ineditismo do negócio.
“Se eu divulgasse, todo mundo estaria em casa e poderia criar concorrência quando eu voltasse. Me guardei, não postei nada e retrocedi”, explica. Ela voltou a vender ovos de Páscoa e docinhos para sobreviver. Quando os eventos foram liberados, a Magic Algodão ressurgiu, atendendo uma demanda reprimida.
De festas infantis a ativações corporativas
Hoje, a operação da Magic Algodão é complexa e robusta. Nos meses de pico (como junho, julho e outubro), a empresa chega a realizar entre 300 e 350 eventos mensais, com uma equipe rotativa de cerca de 50 freelancers. O investimento médio para colocar uma estação (carrinho) completa em um evento gira em torno de R$ 15 mil.
O negócio se divide entre o social e o corporativo. No portfólio de clientes recorrentes estão nomes como Ivete Sangalo, Eliana, Simone Mendes e Deborah Secco. O tíquete médio para uma festa social pequena começa em R$ 3 mil, mas o valor escala dependendo da complexidade e tamanho do evento.
No corporativo, a marca atende gigantes como Coca-Cola, Lacoste, Ipiranga e Carmed — para esta última, criou algodões-doces em formato de boca para uma ativação em shopping. “Apesar de ser açúcar, é um doce muito nostálgico. Em feiras, as pessoas ficam uma hora e meia na fila não só para comer, mas para tirar foto pelo formato e engajamento”, afirma Mendonça.
Para manter a operação viável, a eficiência é cronometrada: cada algodão-doce artístico precisa ser feito entre 1,5 e 2 minutos para evitar filas excessivas e garantir que a escultura não derreta com a umidade.
Além da técnica, Mendonça aposta na própria imagem para escalar. Inspirada por executivas como Karla Marques Felmanas (Cimed), ela planeja adotar a estratégia de founder-led brand (marca liderada pelo fundador) em 2026, produzindo conteúdo de bastidores e palestrando em feiras de empreendedorismo — neste ano, já foram três convites. “A tendência dos donos de negócios é aparecer mais. É um compromisso que tenho de construir vídeos mais virais e artísticos”, diz.
Mercado em expansão
O crescimento da Magic Algodão acompanha um movimento robusto do setor. Segundo a Associação Brasileira do Comércio de Artigos para Festas (Asbrafe), o mercado de festas e confeitaria cresceu 26% entre 2021 e 2024, movimentando mais de R$ 21 bilhões.
A busca por “entretenimento de experiência” — onde o doce serve também como atração visual — é apontada por consultorias globais como a principal tendência para o segmento de candies nos próximos anos, validando a aposta de Mendonça na “gourmetização” do setor e a retomada pós-pandemia.
Para 2026, os planos são ambiciosos e envolvem uma mudança no modelo de gestão. Mendonça, que até então recusava propostas de franquia, decidiu que é hora de escalar. A meta é abrir 10 franquias inicialmente em pontos estratégicos no próximo ano.
“Recebo pedidos de franquia toda semana e adiava. Acredito que o próximo ano é o momento certo. Estive em um estudo de viabilidade para entender como crescer de forma saudável e consistente”, revela. A empresa já mapeou 100 lugares potenciais para a marca no país.
Além do modelo de franquias, a empresa pretende estabelecer uma base fixa no estado de Minas Gerais para facilitar a logística fora do eixo Rio-SP. A expansão internacional também está no radar, dado o apelo universal do produto.
Para se manter relevante em um mercado que copia rápido, a inovação é constante. A técnica de treinamento da equipe, criada pela fundadora, utiliza associação de imagens (como comparar o focinho de um cachorro a um triângulo) para ensinar a modelagem em açúcar em cerca de três dias.
E para o próximo ano, Mendonça já tem planos que “prometem barulho” — literalmente. “Vamos criar o algodão-doce explosivo. Sabe aquele açúcar antigo que estalava na boca? A gente vai criar essa surpresa. É pegar aquilo que já existe e transformar. É ir do simples para o extraordinário”, finaliza.
Fonte: PEGN