Startup cria robôs autônomos para reduzir custos na plantação de algodão

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    Fundada por um biólogo e dois engenheiros formados pela Universidade de São Paulo (USP), a BSV Robotics nasceu do incômodo com a fuga de cérebros do país e da vivência direta com os gargalos do agronegócio brasileiro. A startup aposta em robótica agrícola e inteligência artificial para enfrentar um dos maiores desafios da cultura de algodão: o combate ao bicudo-do-algodoeiro, praga responsável por uma fatia relevante dos custos de produção.

    “Fundamos a empresa com o valor de promover uma indústria com alta tecnologia e entregar um produto que satisfaz os produtores”, resume Raphael Balducci, cofundador e CMO da BSV Robotics.

    Ele é biólogo e cresceu em uma família produtora de amendoim, inserida em uma cadeia dependente de insumos importados e da exportação. Já os sócios Pedro Viganó (CEO) e Nicholas Smaal (COO e CTO) são engenheiros formados pela Escola Politécnica da USP – Viganó chegou a trabalhar no exterior com robôs autônomos para a construção civil.

    O principal produto da startup é um robô agrícola autônomo, atualmente chamado de BicudoBot, voltado ao combate do bicudo-do-algodoeiro. A máquina detecta e mapeia infestações em tempo real e atua de forma localizada, com a coleta e destruição de estruturas vegetais infectadas, e aplicação pontual de inseticidas onde há presença da praga. Segundo a empresa, isso permite reduzir em até 70% o uso de defensivos químicos.

    O robô opera com câmeras e modelos de visão computacional capazes de identificar danos nas plantas. Esses dados são cruzados com informações climáticas e agronômicas para gerar mapas de infestação, que orientam a tomada de decisão no campo.

    O modelo de negócios segue o conceito de Robot as a Service (RaaS): a startup não pretende vender a máquina, mas oferecer o serviço completo, incluindo entrega, manutenção, atualizações e treinamento, sem exigir mudanças na operação do produtor.

    Mas antes de chegar ao modelo atual, a trajetória da BSV Robotics foi marcada por pivotagens. O negócio nasceu em 2023, dentro de uma aceleradora. “A gente não começou a empreender por ver oportunidade de mercado, mas pela chance de ganhar e conseguir R$ 5 mil”, revela Balducci.

    A primeira aposta foi em estufas automatizadas, mas o modelo se mostrou pouco viável. “Quando estávamos na aceleração, vimos que era um péssimo modelo de negócio. O Brasil não é forte em estufas, é algo caro”, conta. A partir daí, os fundadores passaram a analisar soluções desenvolvidas fora do país para adaptá-las ao contexto brasileiro.

    O foco migrou para robôs agrícolas em campo aberto. Em 2024, com a aprovação de um PIPE Fase 1, a startup se instalou no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), da USP, e passou a desenvolver um robô para colheita autônoma de tomates. O projeto evoluiu, mas novas análises de unit economics levaram a outra guinada. “A colheita autônoma de tomates é interessante, mas fazer um braço robótico barato no Brasil é um grande desafio. Lá fora funciona, mas aqui não se paga”, diz Balducci.

    Robô Bicudobot está em fase de testes no campo — Foto: Divulgação
    Robô Bicudobot está em fase de testes no campo — Foto: Divulgação

    O algodão surgiu como alternativa mais viável. Hoje, quase 20% do custo de produção da cultura é destinado a inseticidas, o que abriu espaço para uma solução focada em eficiência. A escolha é estratégica: o Brasil tem cerca de 2 milhões de hectares plantados e é o terceiro maior produtor mundial. Além disso, a cultura costuma ser rotacionada com soja, o que abre espaço para futuras aplicações da tecnologia.

    Pensando nisso, a BSV Robotics também decidiu mudar o nome do robô, com recursos do programa GreenSampa, voltados a marketing e branding. “BicudoBot restringe o nome a uma praga. O bicudo é só a porta de entrada para colocar nossa plataforma no campo e coletar dados para treinar novos modelos”, diz o CMO.

    A BSV Robotics ainda está em fase de validação e não atende clientes comercialmente. Os testes acontecem em áreas experimentais no interior de São Paulo, como Presidente Prudente e Avaré, em parceria com pesquisadores e produtores, além de uma fundação independente do Mato Grosso responsável por validar tecnologias agrícolas.

    A startup pretende consolidar os resultados ao fim da safra e apresentá-los no Congresso Brasileiro do Algodão, em setembro de 2026. Parte dos recursos vem de associações de produtores e cooperativas. “Precisa estar conectado com esse ecossistema para validar a tecnologia”, afirma Balducci.

    A participação em editais é parte central da estratégia da BSV Robotics. Até agora, a startup já captou mais de R$ 1,5 milhão em recursos equity free. A empresa também participou da chamada Copa do Mundo do Empreendedorismo, na Arábia Saudita, que teve mais de 10 mil inscritos de 40 países. Apesar de não avançar às fases finais, a experiência gerou conexões e interesse em parcerias.

    “Fomos para lá com o objetivo de trazer dinheiro do petróleo para o Brasil e percebemos que precisamos ter outro discurso, de como podemos ajudar eles. Muitas pessoas demonstraram interesse no robô para as plantações locais, que são ínfimas em comparação ao Brasil”, diz.

    Depois de validar a tecnologia em campo e definir a precificação, a startup pretende buscar investimento em troca de equity. Além disso, a BSV já mapeou locais para uma futura fábrica e conversa com autoridades de desenvolvimento regional, em Cuiabá (MT). No longo prazo, a ambição é expandir a atuação para outras verticais e levar a robótica também para a indústria alimentícia.

    Fonte: PEGN