Quando pisou na África do Sul pela primeira vez, em 2017, Mayara Trindade, 33 anos, viveu algo que afirma jamais ter experimentado no Brasil: a sensação de ser apenas mais uma pessoa no aeroporto. Cercada por tripulantes, funcionários e modelos negras em outdoors, ela viu refletido do lado de fora algo que nunca tinha visto do lado de dentro — pertencimento.
A viagem, que seguiria até a Austrália, onde morou por oito meses, plantou a semente de um incômodo que mais tarde viraria negócio: a ausência de mulheres negras na moda.
Da revenda ao desejo de criar algo próprio
Ainda na faculdade, entre 2014 e 2015, a então estudante revendia peças do Brás e do Bom Retiro, regiões de comércio popular de São Paulo. Fotografava tudo no próprio corpo, no da mãe ou da irmã, e era justamente isso que chamava a atenção das clientes.
“As mulheres negras falavam: ah, agora eu consigo imaginar como fica em mim”, relembra a empreendedora. O Instagram engatinhava, modelos diversas eram raras e a pauta racial estava longe de ocupar o espaço que tem hoje.
A revenda seguiu até 2016, quando a futura criadora da Afrikini decidiu viver a experiência no exterior. Na volta ao Brasil, em 2018, recém-formada e já com domínio do inglês, ela engatou processos seletivos de trainee, até descobrir que estava grávida.
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A frustração virou pausa. Em 2019, ela passou o ano inteiro em casa cuidando do filho e reorganizando a própria vida.
No início de 2020, às vésperas do Carnaval, veio o estopim. Após ganhar 3 kg na gestação, a empreendedora decidiu comprar um biquíni para se desafiar a retomar os treinos. Mas ao buscar referências, encontrou apenas modelos magras, brancas e com corpos completamente diferentes do seu.
“Eu estava recém-parida, não conseguia me ver em nenhuma marca. Aquilo me frustrou profundamente”, conta.
Foi diante dessa frustração e da lembrança viva dos outdoors de Joanesburgo, que ela tomou uma decisão: criar uma marca onde mulheres negras e com “corpos reais” fossem protagonistas.
O início da Afrikini
Sem plano financeiro, a empreendedora começou procurando estamparias que tivessem referências africanas. Descobriu que não havia. Perdeu dinheiro testando profissionais, designers e modelagens até encontrar quem fosse capaz de criar estampas exclusivas inspiradas na ancestralidade que queria celebrar.
O início foi intuitivo e emocional, segundo ela. “Eu pedia dinheiro ao meu pai e à minha mãe. Uma hora achava que precisava de cem reais, depois trezentos… Não sei nem dizer quanto investi no começo”, conta. O processo incluiu perdas, como tecidos inadequados e modelagens que não funcionaram.
Quando lançou a coleção em dezembro de 2020, perdeu o timing do verão, mas sabia que precisava “educar” o público sobre aquela proposta inédita. A primeira venda chegou só em janeiro.
O casting que revelou uma demanda reprimida
Para o primeiro ensaio, a fundadora abriu um formulário pedindo voluntárias, mulheres reais. Esperava cerca de dez inscritas, recebeu mais de 500 candidaturas. O volume mostrou que seu incômodo não era individual: havia uma dor coletiva ali.
A seleção buscava espontaneidade: mulheres desinibidas, que se sentissem confortáveis em frente a uma câmera e que pudessem continuar gerando conteúdo com as peças depois. “Eu queria que qualquer mulher olhasse a foto e pensasse: essa poderia ser minha amiga.”
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Os ensaios, feitos em mansões e casas alugadas, sempre tiveram comida, maquiagem e fotografia profissional, tudo pago por ela. “É o dia de princesa das meninas. Eu trato como gostaria de ser tratada”, diz. Até hoje, a marca banca 100% do processo, o que gera um investimento de R$ 3 mil a cada coleção nova.
Da operação artesanal à estrutura profissional
A operação cresceu. O e-commerce, construído por ela mesma, de forma autodidata, agora é apenas mais uma vertente do negócio. A produção é terceirizada, com toda gestão de modelista, costureiras, prazos, controle de qualidade feita pela empreendedora e sua equipe de três pessoas.
Ela mesma testa absolutamente tudo: provando peças, lavando, verificando caimento e elasticidade.
“Para construir reputação, demora anos. Para perder, é um biquíni errado.”
Hoje, a marca funciona com planejamento: coleções idealizadas três meses antes, estoques prontos antes do pico do verão e organização alinhada ao calendário comercial.
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O negócio: crescimento, números e maturidade
O que começou com 10 peças vendidas por mês hoje chega a cerca de 200 itens mensalmente, com picos maiores na temporada de calor. Os ensaios, que custavam R$ 500 nos primeiros anos, hoje giram em torno de R$ 3 mil e modelagens completas custam R$ 3.800.
As estampas afrocentradas continuam exclusivas, as modelagens vão do PP ao XG e os lançamentos acontecem entre duas e três vezes ao ano. O fitness entrou no catálogo em 2023, como forma de ampliar o tquete médio e reduzir sazonalidade.
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A fundadora mantém a operação enxuta, mas profissionalizada. Continua sem loja física — algo que nunca fez parte dos planos, segundo ela — e aposta em feiras e eventos como o Festival Feira Preta para aproximação com o público.
Fonte: PEGN