SÃO PAULO, 15 Jun (Reuters) – Os leilões de propriedades rurais tomadas por credores estão aumentando vertiginosamente em todo o Brasil, segundo dados compilados para a Reuters, à medida que a inadimplência no campo cresceu para quase um quinto dos empréstimos em circulação.
Preços mais baixos dos grãos, taxas de juros altíssimas e custos crescentes dos insumos, bem como os estragos causados por um clima imprevisível em um cenário de mudanças climáticas, levaram a falências e à tomada de mais fazendas em todo o Brasil, disseram produtores e analistas à Reuters.
Para agravar os problemas, os agricultores brasileiros estão se preparando para um possível fenômeno climático do tipo ‘super El Niño’, que poderia prejudicar a produtividade das safras e reduzir ainda mais suas rendas.
Além disso, a alta nos preços dos fertilizantes durante a guerra no Irã levou mais agricultores brasileiros a reduzir suas ambições em relação a novos plantios.
O Rio Grande do Sul é um dos Estados que sofre com a inadimplência, após as enchentes catastróficas de 2024 influenciadas pelas mudanças climáticas em ano de El Niño, de acordo com um estudo publicado em janeiro na revista ‘NPJ Natural Hazards’, da editora ‘Nature’.
As dívidas problemáticas emitidas sob as regras de crédito rural do Brasil mais que quadruplicaram em dois anos, chegando a R$171,2 bilhões no início deste ano, de acordo com dados do Banco Central que acompanham questões como empréstimos inadimplentes, inadimplências, pagamentos reescalonados e renegociações.
As dívidas inadimplentes cresceram para 19,6% dos empréstimos agrícolas, ante apenas 5,5% dois anos antes, mostraram os dados do Banco Central.
‘Este momento de endividamento no campo é um momento extremamente delicado’, disse o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura do Brasil, Guilherme Campos, à Reuters.
VENDA DE PROPRIEDADES RURAIS
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Os credores brasileiros têm se tornado mais agressivos na tomada de terras agrícolas como garantia de empréstimos inadimplentes, aumentando o número de propriedades rurais em leilão, de acordo com dados do site agregador Leilão Imóvel compartilhados com a Reuters.
O volume desses leilões saltou para 14.219 propriedades rurais leiloadas em 2025, um aumento de 30% em relação ao ano anterior.
As propriedades tomadas e leiloadas em procedimentos extrajudiciais mais rápidos quase dobraram, chegando a 2.398 no ano passado.
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O Leilão Imóvel pesquisou cerca de 7% a mais de leiloeiras em 2025, portanto os dados não são diretamente comparáveis, disse o cofundador André Figueiredo.
No entanto, as maiores leiloeiras vêm compartilhando dados desde 2019 e há uma tendência clara que mostra piores dificuldades financeiras para os agricultores brasileiros nos últimos anos, afirmou ele.
‘O volume de imóveis rurais aumentou bastante’, disse ele, acrescentando que as regiões voltadas para a produção de soja e outros grãos foram as mais afetadas.
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Os pedidos de recuperação judicial do setor agrícola aumentaram 56% em 2025, após mais que dobrarem em 2024, de acordo com dados publicados pela agência de crédito Serasa Experian.
CLIMA TURBULENTO
Os produtores ainda lutam para se recuperar de uma série de choques, disse o head de agronegócio da Serasa Experian, Marcelo Pimenta.
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Outros fatores que prejudicam a capacidade dos agricultores de arcar com suas dívidas, disse ele, incluem o mau tempo, preços mais baixos para as exportações agrícolas — particularmente a soja — e uma taxa de juros de referência brasileira que subiu de 2% para 15% em cinco anos.
‘A perspectiva para frente não é boa’, acrescentou ele. ‘Os juros ficaram muito altos e não sabe onde vão ficar os preços das commodities. A chance de choques por problemas climáticos é muito alta.’
Um agricultor do Rio Grande do Sul, que pediu para não ser identificado, disse que é uma luta acompanhar as taxas de juros ‘impagáveis’ depois que condições climáticas extremas arruinaram suas safras. Um credor recentemente tomou posse de mais da metade da fazenda da família.
‘A mudança climática, ela é expressiva, ela é evidente. Nós não estamos conseguindo produzir uma hora por muita chuva e outra hora por muito sol. Então eu te digo assim: o fator clima é o fator que nos colocou nessa posição.’